HERÓIS SEM BEIJOS

Manuel Domingos Neto – Professor da Universidade Federal Fluminense – INEST

   

Guerras são planejadas, desencadeadas e finalizadas com intrigas e encenações, umas de longo curso, outras rapidamente desmontadas; todas, mais ou menos nobres ou ignominiosas, dependendo do ponto de vista de quem as observa.

   No caso da guerra do Iraque, o engodo inicial logo foi desfeito com a constatação da inexistência de armas de destruição em massa e a conclusão de que Saddam Hussein nada tinha a ver com os atentados de 11 de setembro. Mas ainda há muito o que explicar sobre as motivações e circunstâncias da morte de centenas de milhares de pessoas, da expulsão de um milhão e meio de famílias de suas casas, da destruição da infraestrutura do país, dos desvios de verbas públicas por grandes firmas estadunidenses prestadoras de serviço, do abominável comportamento dos soldados invasores, do envolvimento de centenas de milhares de mercenários, do enforcamento de Saddam Hussein…

   Quanto ao impacto sobre a economia e a sociedade estadunidenses dos gastos nesta sinistra aventura, conclusões mais sólidas ainda devem demorar. O senso comum associa facilmente a guerra à crise econômica, mas tal relação não é tão trivial. Guerras produzem efeitos variados de curto, médio e longo prazos sobre o desenvolvimento econômico, a cultura e o estado de espírito das sociedades envolvidas. A história aponta exemplos de derrotas fragorosas que catapultaram economias e vitórias arrasadoras que enterraram grandes impérios. A sangrenta aventura no Iraque gerou empregos, aperfeiçoamentos tecnológicos e lucros que não serão contabilizados da noite para o dia. Os invasores cobrarão indiretamente, por longos anos, pesados tributos ao povo iraquiano (é intrigante a falta de cobertura jornalística sobre isso!).

   No momento, interessante é acompanhar as explicações sobre o retorno das tropas estadunidenses. A pretensão de mostrar a retirada como a realização de uma promessa de campanha eleitoral de Barack Obama é tragicômica. Os soldados voltaram para casa não exatamente por terem concluído com êxito uma nobre missão, mas por uma exigência dos governantes alçados ao poder pelos invasores!

   Sabe-se, desde Platão e Aristóteles, que o poder é de quem faz e impõe a lei. Fenômeno essencialmente político, o sucesso da guerra é antes de tudo medido pela capacidade de impor a vontade ao adversário, ensinava Clausewitz. Se no cotejamento do manejo de armas os resultados podem ser claros, na esfera política, não raramente seguem-se situações duvidosas. Os resultados das guerras não são decididos apenas no campo de batalha nem podem ser medidos pela mera contabilidade dos gastos, da destruição causada e do número de vítimas.

   Na reorganização do Estado iraquiano, a força “vitoriosa” não logrou ditar uma legislação que lhe permitisse permanecer no terreno conquistado! O xiita Nuri Kamal al-Maliki, primeiro-ministro iraquiano, recusou assegurar imunidade legal às tropas estrangeiras que permanecessem  em território iraquiano. Caso os soldados estadunidenses não fossem retirados, suas tropelias seriam submetidas a tribunais e leis de inspiração xiita. Em outras palavras, o governo iraquiano obrigou a Obama a retirar seus homens. Em recado explícito, as novas autoridades se recusaram a participar da solenidade de recolhimento da bandeira estadunidense e ignoraram a presença de Leon Panetta, o secretário de Defesa dos Estados Unidos.

   Outro lance demagógico rotundo é a tentativa de emprestar dignidade à morte dos cinco mil estadunidenses que perderam a vida ao longo dos nove anos desta guerra que Obama, quando candidato a presidência dos Estados Unidos, adjetivava como “estúpida” (como são conceitualmente insossas as adjetivações de conflitos sangrentos!). Há muito a sociedade estadunidense exigia o retorno da tropa; não reconhecia, portanto, que os guerreiros matavam e morriam pela causa da pátria. Vai longe o tempo em que jovens estadunidenses não aproveitados nas fileiras se envergonhavam, como na Segunda Guerra Mundial. Usando uma metáfora de Platão, hoje os guerreiros não voltam para casa merecendo beijos de homens, mulheres e crianças. Boa parte ficará desempregada, traumatizada e mergulhada em assombrações pela matança efetivada em terras distantes. Alguns engrossarão a delinquência; outros devolverão suas medalhas; muitos ingressarão no imenso coral que repudia a condução das políticas públicas do grande Império. O Estado não lhes ampara na reintegração à vida normal. Para uma sociedade em crise de autoconfiança, o retorno dos guerreiros não constitui de fato momento de confraternização.

   Liderados pelos Estados Unidos, os ocidentais destronaram o dirigente da minoria sunita que se impusera à maioria xiita, agora detentora das rédeas do governo. A “vitória” findou reforçando a influência dos aiatolás iranianos, exatamente os mais temíveis adversários de Washington. Treinando e armando as novas forças policiais iraquianas os estadunidenses podem ter presenteado os líderes religiosos. Como alguns já assinalaram, no Iraque, a guerra pode ter acabado para os Estados Unidos, não para a população local que vive seu dia-a-dia de embates sangrentos entre seitas e etnias. A instabilidade política não tem data para terminar.

   Para os líderes estadunidenses que pensam que a força tudo pode, o retorno das tropas enviadas ao Iraque fica mais triste diante das sensacionais mudanças no mundo árabe.

   A tradicional rede de apoio aos Estados Unidos e Israel se escarça aceleradamente. No Egito, o lugar de Hosni Mubarak é violentamente disputado por forças religiosas conservadoras e corporações militares politicamente desautorizadas; a Síria deixou de ser terreno seguro para os importantes oleodutos; o Barein não quer mais sediar poderosa base militar estadunidense e a permanência da monarquia de Al Khalifa, da minoria sunita, é posta em dúvida; ninguém aposta na manutenção da unidade do Iêmen, onde chefes tribais e militantes extremistas reforçam dia-a-dia suas posições; a capacidade militar e econômica do Irã foi ampliada e agora disputa a hegemonia no golfo Pérsico com a Arábia Saudita; chineses e russos, sinalizando que não pretendem ser meros expectadores no intrincado tabuleiro do Oriente Médio estimulam as lembranças da bipolaridade Ocidente-Oriente…

  O futuro político do mundo islâmico é uma incógnita. Até o presente, o saldo da invasão do Iraque foi o incremento das incertezas domésticas tanto nas potências invasores, notadamente nos Estados Unidos, quanto no país que Saddam Hussein mantinha sob rígido controle.

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1 comentário

Arquivado em Manuel Domingos Neto

Uma resposta para “HERÓIS SEM BEIJOS

  1. No mundo em que se reorganizam os poderes globais, não faz mais sentido o velho discurso salvacionista que Hollywood tão bem soube explorar. encaro os acontecimentos da retirada das tropas do Iraque, da chamada “primavera árabe” e dos recentes levante na Síria como os últimos espasmos de um imperialismo em decadência! Além disso, a ascensão da China e o poderio russo competem para a aceleração desse processo. Excelente letra, Manuel domingos!

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