A COVARDIA, A ANISTIA E O PASSADO

Eduardo Heleno – professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense

   Os despojos escavados no entorno da área militar do campo Vidella, local de treinamento da elite do 14º Batalhão de Infantaria paraquedista do Exército Uruguaio  reabririam cicatrizes mal cobertas pela versão oficial. Depois de vencer a barreira de cal e pedras, os investigadores encontraram um esqueleto, ainda com vestígios de roupa e sapatos, enterrado a  1,40 m de profundidade, em posição fetal. Num dos bolsos da calça, uma nota de 20 pesos. 

    A equipe forense não achou o corpo de Maria Claúdia, nora do poeta argentino Juan Gelman, mas do jornalista e  professor rural Júlio Castro Pérez, um dos fundadores da Frente Ampla e do semanário Marcha, até então um “desaparecido político”. A revelação foi feita no início deste mês de dezembro, dois meses depois de encontrado o corpo,  e comoveu o Uruguai.

   Júlio havia sido preso pelo Serviço de Informação e Defesa em 1º agosto de 1977; após sair da casa de um amigo, fora levado para um centro clandestino de detenção na avenida Millán, no número 4269.

    A equipe de legistas encontrou evidências que Júlio, de 68 anos a época, além de torturado, fora executado com um tiro na cabeça. As lesões no crânio e nas vértebras indicam que ele pode ter sido alvo de mais de um disparo. Os arames, que lhe atavam mãos e pés provam a covardia de seus carrascos. Resistiram ao tempo e às mentiras sustentadas por militares uruguaios coadunados com o terrorismo de Estado.

 

    O laudo sobre a morte de Júlio contesta o relatório do Exército, feito em 2005, sobre os crimes ocorridos no regime militar (1973-1985). O documento apontava que o corpo de Castro teria sido exumado em 1984, já no fim da ditadura e incinerado. Esses documentos, elaborados a pedido do então presidente Tabaré Vázquez, engrossariam os informes do Relatório da Comissão de Paz, de 2003, produzido no governo do presidente Jorge Battle.

   Na época, a Aeronáutica também produziu relatórios relevantes para o esclarecimento do que ocorrera com os “desaparecidos”. Com a ajuda de informante anônimo, esses dados foram cruciais para identificar os corpos de Ubagessner Chávez Sosa, dirigente da União Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos e de Ramos Afins e do professor universitário Fernando Miranda, vítimas da operação Morgan, em 1975.  

   A Marinha, por sua vez, se recusou a colaborar. O chefe da armada, Tabaré Daners, declararia que a Força não tinha responsabilidade sobre os “desaparecidos”. Por pressão da sociedade, a instituição acabou divulgando informes que evidenciariam as conexões entre as armadas argentina e uruguaia durante a operação Condor. Se levasse apenas em consideração a versão oficial, a sociedade uruguaia jamais saberia que, quem deveria protegê-la, executava compatriotas a sangue frio e ocultava seus cadáveres.

   Depois de seis anos e de dois governos da Frente Ampla, a relação da oficialidade com o passado parece ter mudado. O comandante do Exército, o general Pedro Aguerre  declarou à imprensa, no dia 5 de dezembro último, que a corporação não é uma horda e que não aceitaria homicidas ou delinquentes em suas fileiras.

   O general inclusive citou Espinosa ao ressaltar que, negar o passado ante uma desgraça presente, é uma manifestação de escassez de valentia, de covardia.

   Diferentemente de seus antecessores e mesmo de seus pares nos países do Cone Sul, que preferiram esquecer os crimes cometidos por seus companheiros de farda nos anos de chumbo, Aguerre propôs o rompimento do pacto de silêncio estabelecido após a redemocratização. Desde que assumiu suas funções, em 31 de outubro de 2011, seu compromisso com os esclarecimentos à sociedade parece indicar um ponto de inflexão nas relações civis e militares no país.

   Em sintonia com Aguerre, o  chefe do Estado Maior de Defesa do Uruguai, general José Bonilla,  declarou ao jornal Observador que a morte de Júlio Castro deveria ser investigada e os responsáveis punidos: “essa situação não é reflexo das Forças Armadas de hoje e de nenhum tempo. Uma coisa é matar em um enfrentamento e outra é executar uma pessoa. Não concordo em nada com essas práticas”.

   Que se apure a verdade, então, comandantes! Que os militares da banda oriental tenham coragem para enfrentar o passado e se desapeguem de um corporativismo lesivo. Que  se entendam com a sociedade para que nunca mais as Forças Armadas se desviem de suas funções. No Uruguai dos anos 70, havia cinco mil prisioneiros políticos, 15 mil em liberdade vigiada, além de 60 mil cidadãos que de alguma maneira passaram pelo cárcere. Cerca de 300 mil uruguaios foram exilados por motivos políticos ou econômicos (a população não chegava aos 2,8 milhões de pessoas!). As Forças Armadas eram consideradas uma força de ocupação de seu próprio país; não poderia reclamar a condição de esteio da nacionalidade.

   Há ainda duas centenas de “desaparecidos” no Uruguai. O país vive um panorama favorável para avançar no esclarecimento da verdade. A chamada “Ley de la Caducidad de la Pretensión Punitiva del Estado”, de 1986,  que impedia a abertura de processos contra os torturadores, perdeu sua força. O Congresso aprovou, em 27 de outubro de 2011, outra lei garantindo que os crimes de lesa-humanidade são imprescritíveis. Abre-se, aos uruguaios o caminho para uma reconciliação sólida, baseada na verdade e na punição dos culpados e não no esquecimento de crimes imperdoáveis.

   E segue-se um exemplo para que possamos abrir a caixa de pandora de nosso passado recente. Conseguiremos?


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2 Comentários

Arquivado em Eduardo Heleno

2 Respostas para “A COVARDIA, A ANISTIA E O PASSADO

  1. Denise Tavares

    Parabéns pela revista e por esta matéria. Estudo a América Latina pelo viés da cultura audiovisual e o trabalho que desenvolvem tem complementado de forma muito interessante as pesquisas que desenvolvo. Abraço. Profª Denise Tavares (Depto. de Comunicação – UFF)

    • Obrigado, Denise. Esperamos oferecer informações relevantes sobre os processos e rupturas em andamento na região, assim como dispor aos nossos leitores análises sobre fatos que normalmente passam ao largo do noticiário brasileiro. Conto com sua visita periódica ao Orbipolítica. Abs, Eduardo Heleno.

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