Exilado em seu país

 Mônica Dias Martins

Professora do Mestrado de Políticas Públicas e Sociedade da UECE,  coordenadora do Observatório das Nacionalidades.

   Único socialista entre os congressistas estadunidenses, Bernard “Bernie” Sanders viveu até recentemente uma espécie de exílio em seu próprio país. Chamado pelos opositores de “vermelho”, estigmatizado pela defesa do socialismo, imprensado pelo bipartidarismo, este senador tem sido incansável nas críticas ao sistema financeiro. Com a fala carregada de sotaque do bairro operário do Brooklin, responsabiliza o governo e os bancos pelo empobrecimento acelerado da classe média e pela corrupção da “democracia”. Agora suas ideias ressoam nas ruas através de movimentos como o Occupy Wall Street e, finalmente, chegam à mídia.

   Bernie trabalhou como carpinteiro, jornalista, cineasta amador, escritor e pesquisador da “Sociedade Histórica do Povo Americano” até alcançar mandato parlamentar. Marcado pelas iniquidades sentidas na carne desde a infância, seu interesse pela política remonta aos anos setenta quando, estudante da Universidade de Chicago, militava contra a guerra no Vietnã e o racismo. Sua carreira política começa, em 1981, ao ser eleito, por 12 votos de vantagem, prefeito de Burlington, pequena cidade do estado de Vermont. Em três administrações consecutivas, firma grande apoio popular com a revitalização do centro urbano, a construção comunitária de moradias, o incentivo a pequenos negócios e a organização de um time de baseball. Liderando processo judicial contra a companhia de telefone e TV a cabo, consegue significativa redução de tarifas.

   Após tentativas fracassadas de se eleger governador de Vermont, sempre ostentando o amaldiçoado epíteto de socialista em uma sociedade ainda marcada pelo macarthismo, Bernie se candidata a deputado. Torna-se, então, o primeiro político independente eleito para o Congresso dos EUA nos últimos quarenta anos. Seu mandado se estende de 1990 a 2007, qualificando-o como o mais longo sobrevivente político do bipartidarismo. Demonizado pelos republicanos como extremista de esquerda, Bernie se aproxima das proposições da socialdemocracia europeia, nunca recebendo menos de 55% dos votos do eleitorado. Embora as relações com a liderança do Partido Democrata não sejam tranqüilas, endossa suas indicações para presidente desde 1992 e coordena o grupo de democratas progressistas nos primeiros oito anos do mandato. Em troca, recebe cadeiras da cota dos democratas nas comissões da Câmara.

   Ferrenho adversário de Bush, a quem acusa de invadir países indefesos e reduzir gastos com programas sociais voltados às populações pobres, e crítico de Alan Greenspan, diretor do Federal Reserve, por sua postura de representante das corporações multinacionais, Bernie busca em vão aprovar o impeachment do Presidente em um Congresso sob controle do Partido Republicano. De olho na eleição para o Senado, faz um acordo com os democratas para concorrer às primárias, mas atuar de forma independente caso vitorioso. Em 2006, obtém 65,4% da preferência do eleitorado de Vermont.

  Membro de várias comissões (Orçamento, Meio ambiente e obras públicas, Energia e recursos naturais, Saúde, Educação, Trabalho e Aposentadoria, Veteranos), o primeiro senador socialista tem como plataforma política a reforma do sistema de saúde, a limitação do cartel da mídia, a auditoria no Federal Reserve, o aumento dos benefícios aos veteranos, a retirada das tropas de ocupação do Iraque e Afeganistão, os direitos dos homossexuais, a renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, a energia limpa e uma nova política comercial para a China e a América Latina.

   Em 21 de novembro, derrotada a proposta de taxação dos ricos na comissão que discute o déficit orçamentário, afirma na TV que o povo americano deixou claro que é hora de dividir o prejuízo com o 1% da população, fenomenalmente rica e beneficiada com os menores impostos em três décadas. No momento, batalha para derrotar o projeto de lei National Defense Authorization Act Bill, que aprimora o Ato Patriota dando poderes ao executivo para ordenar a prisão de civis ou submetê-los a julgamento em qualquer parte do mundo, inclusive nos Estados Unidos. Este projeto pretende tornar o espaço doméstico uma “zona de guerra” em que os militares poderiam agir contra compatriotas “inimigos”. Nada mais incomodo para a sensibilidade nacional estadunidense.    

   A atuação de Bernie desafia o exemplo de democracia que o “império da incoerência”, na arguta definição de Michael Mann, procura impor a regiões longínquas e povos de tradições culturais diversificadas. Na tentativa de moldar o mundo à sua “imagem e semelhança”, a potência militarista tem se valido de uma arma com poder de atração universal: a promessa de uma vida melhor, ou seja, o “sonho americano” alimentado pelo mito do self made man. Já em 1831, Tocqueville considerava a ideia de democracia na América “irresistível”. O autor francês, temendo tanto a sociedade de massa, que levaria à “tirania da maioria”, quanto a centralização do Estado, que caracterizaria o despotismo, tratou com tolerância a escravidão e previu conflitos raciais, a política externa expansionista, a emergência dos EUA e da Rússia como potências e a disseminação do modelo de governo democrático.

   A “América” de Tocqueville está cada vez mais parecida com um Estado policial, usando de brutalidade contra manifestações pacíficas que exigem o fim da concentração de renda, riqueza e poder. Atualmente, existem cerca de quatro mil presos por exercerem os direitos de livre expressão e reunião, que em outros países seriam designados de prisioneiros políticos, sem contar as “casualidades”, eufemismo para os mortos em combate. A resposta de Washington a essa situação é patética: “Há uma profunda frustração sobre o fato de a essência do sonho americano – que é se você trabalha e persiste, você consegue – estar se perdendo”, disse Obama, em 22 de novembro, ao se referir ao movimento “Ocupem Wall Street”, repetindo, aliás, palavras de sua campanha presidencial.

  Na “polis” grega, a democracia ou o governo de muitos pressupunha uma “comunidade de semelhantes”, embora admitisse a propriedade de escravos para desenvolver as atividades econômicas. Nos Estados Unidos, finda a guerra civil em 1886, a Suprema Corte reconhece as empresas privadas como pessoa física, “gente de carne e osso”, com direitos de cidadania protegidos pela 14ª Emenda à Constituição. Desde 2010, as empresas adquiriram o direito de fazer gastos ilimitados em campanhas eleitorais, legalizando a prática há muito corrente de lobby em um sistema político no qual o presidente não é eleito diretamente, o eleitor não goza de alternativas reais na escolha de seus representantes, o cidadão não recebe incentivos para exercer o direito de voto e a apuração dos resultados das eleições é incrivelmente ineficiente. Com milhares de dólares canalizados aos representantes políticos sem deixar rastro, os Estados Unidos parecem um caso exemplar de país que tem o melhor governo que o dinheiro pode comprar.

  Como chamar de democrático um Estado que impede a nação de se organizar e expressar livremente? Com a crescente desigualdade em casa, até quando o império conseguirá manter o discurso de “paladino da democracia”? 

  Se a democracia, como quer Bobbio, é um conjunto de regras que vigoram e são respeitadas de modo a permitir ampla participação da maioria nas decisões de interesse da coletividade, as ameaças à república democrática não podem partir dos pobres, mas dos muito ricos. Nos EUA, conforme estudo recente divulgado pelo Economic Policy Institute, 1% da população desfruta de 60% da renda total no período de 1979 a 2007. A extensão e gravidade da concentração de riqueza podem ser avaliadas pelo índice de Gini, que saltou de 0.39, na década de setenta do século passado, para 0.47, em 2009, e pelo contingente vivendo abaixo da linha de pobreza: 15%, o percentual mais elevado desde 1993, ou seja, 46,2 milhões de pessoas.

  Contudo, não é apenas o retrato da sociedade estadunidense contemporânea que importa para o processo democrático. A desigualdade revela tendências futuras. Face às disparidades sociais, torna-se quase impossível uma ação planejada em âmbito nacional: a dinâmica econômica não afeta igualmente a todos nem parece haver interesse comum nas mesmas políticas públicas. Apenas os bilionários têm motivos para celebrar a “democracia americana”.

   E quanto à maioria silenciosa? O grito dos “99%” traz à tona o debate sobre a concepção e as experiências de democracia, relacionando-as com as aflições materiais do presente e as lutas históricas dos movimentos pelos direitos trabalhistas e civis, contra as discriminações e as guerras.

   O poder não concede nada sem demandas e, neste sentido, o fim do exílio político de Bernie deve muito à pressão popular que, em certa medida, tem pautado a agenda dos meios de comunicação. Obviamente, não cabe confiança excessiva na cobertura da grande imprensa, mesmo para um bem sucedido parlamentar socialista. Hoje, poucos lembram o protesto dos trabalhadores do setor público no estado de Wisconsin, iniciado em fevereiro de 2011 e que, rapidamente, conquistou solidariedade nacional e atenção da mídia. Se as ideias do senador repercutem em uma sociedade marcada pelo consumo e pelo culto a celebridades, é sinal de mudança. Mas, até onde o regime político resistirá à milhões de pessoas dizendo “basta”?

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