A crise e as armas do Império


Manuel Domingos Neto, professor do INEST-UFF e coordenador do Observatório das Nacionalidades, Thomas Ferdinand Heye,professor do INEST-UFF

   Com os cortes orçamentários atingindo duramente os segmentos sociais mais fragilizados, a outrora confiante superpotência torna-se um caldeirão social. A repressão policial e as restrições aos direitos democráticos não abafam as insatisfações. Neste ambiente muitos reclamam dos gastos em Defesa. O retorno das tropas do Afeganistão e do Iraque tornou-se uma exigência popular incontornável. É natural que muitos se perguntem se os Estados Unidos lograrão manter a projeção de poder que, desde a Segunda Guerra Mundial, cresceu de forma extraordinária dando-lhes a condição de polícia planetária.

   A momentânea incapacidade de enviar homens ao espaço alimenta tal questionamento, bem como as fragilidades escancaradas da OTAN. Mesmo sob o domínio de conservadores, potências como a França e a Inglaterra reduziram drasticamente seus gastos militares. Em plena ofensiva na Líbia, o almirante britânico Woodward, comandante da frota que expulsou os argentinos das Malvinas, desnudou a fragilidade da Royal Navy, desprovida de porta-avião operacional, indispensável para ações de algum porte. O único porta-aviões britânico disponível não sai de sua base desde 2010. Acompanhando Woodward, o comandante da marinha britânica, almirante Stanhope, disse que mal conseguiria defender o Canal da Mancha. Do lado oposto do Canal, o chefe do estado-maior da marinha francesa, almirante Forrisier, declarou que o porta-aviões Charles de Gaulle deve ser recolhido para manutenção sob pena de não operar em 2012.

   Mas, quanto aos Estados Unidos, o quadro é diferente: o governo democrata insiste em exibir força militar. A manutenção dos gastos militares é um sólido indicador das prioridades de Washington. De acordo com o SIPRI (http://www.sipri.org), os gastos militares estadunidenses em 2007 – antes da grande crise, portanto – eram de US$ 576.294 bilhões. Em 2009, passou a ser US$ 668.604 bilhões e em 2010, US$ 687.105 bilhões. Mesmo atolado em dívida, o governo estadunidense responde por 43% dos gastos globais em defesa e segurança. Esse valor é mais de seis vezes do desembolso chinês, o segundo maior do mundo na matéria.

   Os custos totais das guerras no Iraque e no Afeganistão não estão inclusos no orçamento base de defesa. Trata-se de despesas “extraordinárias” e o Congresso norte-americano é diretamente responsável por sua liberação. Note-se ainda: parte considerável dos recursos gastos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico com fins bélicos não aparece claramente nos gastos públicos dos Estados Unidos.

  Obama assumiu o governo prometendo por fim às guerras e diminuir custos das intervenções militares. Mas sua disposição efetiva mostrou-se demasiado tímida. As reduções nos custos operacionais das forças estadunidenses no Iraque e no Afeganistão para o próximo ano fiscal é de US$ 118 bilhões, apenas US$ 41 bilhões menor em relação ao ano corrente. Para um país em pleno ataque de nervos devido a dívida pública que atinge trilhões de dólares isso é economia de palito.

  Mesmo os Estados Unidos congelando investimentos em novos sistemas de  armas, levaria décadas para que qualquer outro país atingisse seu nível de sofisticação  tecnológica e operacional. Demonstração clara de sua musculatura foi a recente exibição da chamada “arma hipersônica avançada”, um míssil capaz de atingir cinco vezes a velocidade do som. Testado a partir do Havaí, este artefato atingiu com precisão seu alvo no atol de Kwajalein, a 3,7 mil quilômetros de distância em menos de meia hora. A partir de agora os Estados Unidos podem atingir qualquer país do mundo em apenas uma hora. O incrível é que essa arma pode ter seu percurso alterado para evitar a passagem pelo espaço aéreo de determinados países.

   É claro que, em função da crise econômica, diversos programas de defesa sofreram cortes ou foram cancelados. É o caso do caça de quinta geração F-22, o avião de carga C-17, o helicóptero VH-71 e o helicóptero de busca e resgate da Força Aérea, assim como também o veículo de combate terrestre previsto no sistema de combate futuro do exército daquele país. O sistema de defesa por mísseis também sofreu cortes. Em setembro de 2009 o governo Obama cancelou a implementação do sistema na Polônia e suspendeu a instalação de um radar na República Tcheca. A esquadra americana atualmente equivale a metade do que nos anos 80, atingindo o menor número de navios desde 1916. As compras da próxima geração de detroyers DDG-1000 foram canceladas, a construção do moderno navio MPF-A foi suspensa, assim como a da plataforma de aterrisagem móvel. A próxima geração de cruzadores foi adiada indefinidamente. Atualmente a marinha americana conta com 280 navios contra 568 em fins dos anos 80. Os 11 navios-aeródromos devem ser reduzidos para 9. Em relação ao exército, entre a queda do Muro de Berlim e os ataques de 11/09, o número de divisões foi reduzido de 18 para 10. 

   Todavia, apesar da advertência do Pentágono e de analistas conservadores quanto à perda de potência dos Estados Unidos, os cortes, adiamentos e suspensões de programas de defesa não representam efetivamente redução de capacidade operacional. Ninguém ousaria acreditar que as crescentes ameaças contra o Irã representam um blefe.

   No ambiente pré-eleitoral dos Estados Unidos, o confronto entre o Congresso, dominado pela barulhenta oposição republicana e a Casa Branca poderia ser assim resumido: o governo mantém os investimentos militares, mas os efetivos em atuação no Iraque e no Afeganistão serão retirados o mais rapidamente, à revelia do rastro de problemas locais que isso possa causar. Diante da grave crise econômica, as elites estadunidenses não vacilam em manter azeitado seu aparato militar.

   A decisão da superpotência militar não causa estranheza. Perdendo espaço na esfera econômica para potências emergentes, os Estados Unidos não abdicam de dar as cartas no jogo da força bruta. Não se trata de fazer frente a eventuais ameaças externas. Diante da assimetria da capacidade militar, apenas ataques não convencionais podem atingir o território estadunidense. Trata-se efetivamente de assegurar o papel de protagonista maior na arena internacional.

Gastos globais em defesa (fonte: SIPRI; arte: Le Monde)

  A polarização partidária antecipada para as eleições presidenciais de 2012 ajuda a preservar a defesa militar estadunidense de cortes orçamentários. As articulações políticas para enfrentar a crise não atingem o orçamento de defesa. Os conservadores republicanos defendem agressivamente uma diminuição do papel do Estado em praticamente todos setores, mas silenciam quanto aos gastos militares. Já Obama não se arriscaria a perder o apoio de eleitores de centro-direita, que não admitem riscos a redução do poderio militar norte-americano. Em suma, a manutenção do orçamento de defesa é um dos poucos denominadores comuns a republicanos e democratas.

  A elite estadunidense faz ouvido de mouco a uma advertência elementar daqueles que se detiveram no exame da ascensão e queda das grandes potências. Para mencionar apenas Paul Kennedy, o mais conhecido dos pesquisadores nesta temática, a busca pela supremacia militar tende a impulsionar a economia, mas a manutenção por tempo ilimitado de extensas projeções de poder sempre estiveram entre as grandes causas das decadências dos impérios. Nas últimas décadas, os investimentos em tecnologia de defesa estiveram estreitamente associados ao desempenho da economia estadunidense. O impressionante, no movimentado cenário internacional, é a velocidade com que as tendências se invertem. Esforços para o domínio tecnológico se desenvolvem em potências que assumem papel crescentemente relevante na esfera econômica. Mais que do que de armas potentes, a força militar de um país se revela na disposição de luta da sociedade. No caso dos Estados Unidos, é impressionante como os protestos sociais associam rapidamente as dificuldades da economia aos gastos militares, arranhando a legitimidade interna das ações guerreiras do Grande Império do Norte.

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