Os generais que precisamos (I)

 Manuel Domingos Neto – Professor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF

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  Os brasileiros pagaremos caro para termos equipamentos de Defesa de alta tecnologia: submarinos nucleares, foguetes lançadores de satélites, ferramentas cibernéticas… Uma Medida Provisória com importantes amparos à indústria bélica está em debate no Congresso. Apesar do pouco dinheiro para melhorar nossos serviços públicos e nossa infraestrutura, bancaremos esta conta. Não dá para ficarmos sem meios de dissuasão ou enfrentamento de eventuais rapineiros. Sem autonomia na produção de armas e equipamentos, nossas força e voz seriam desprezíveis.

     Além disso, o desenvolvimento desta indústria, hoje dita “de Defesa”, sempre esteve vinculado ao desenvolvimento socioeconômico como um todo. Ilustrando: a fabricação de explosivos permitiu a invenção de adubos químicos que multiplicou a produção de alimentos; a tecnologia nuclear tornou-se indispensável em inúmeros procedimentos da medicina e da agricultura; a tecnologia espacial para fins militares ensejou possibilidades de comunicação antes impensáveis.

    A decisão de apoiar esta indústria, além de despesas, envolve aspectos preocupantes: os armamentos portam crescente capacidade de destruição de vidas e geram prejuízos ao meio ambiente. Por conta de novas armas, o século XX registrou as maiores carnificinas da historia. Sem o apoio da grande indústria germânica, que produzia o melhor e mais potente armamento do mundo, os nazistas não teriam ido até onde foram; o mesmo se pode dizer quanto a pretensão estadunidense de deter a palavra última e única sobre os destinos da humanidade. A ampliação da potência militar da União Soviética esteve na base da ruína da experiência socialista.

   O desenvolvimento da indústria bélica interfere perturbadoramente nas relações internacionais, já que, para garantir economia de escala, o produtor disputa mercado externo. O lucrativo comércio de armas movimenta anualmente, de forma legal ou ilegal, bilhões de dólares e altera as relações de poder entre Estados. A ONU aponta o tráfico de armas, ao lado do tráfico de drogas e da lavagem de dinheiro sujo como um dos grandes problemas da agenda internacional.

   Desde o século XIX, fabricantes de armas têm fomentado propositadamente rivalidades e buscado o prolongamento indefinido de confrontos sangrentos. É frequente o caso de o mesmo fornecedor suprir antagonistas. Numerosos genocídios que envergonham a humanidade foram possibilitados, quando não diretamente estimulados pela indústria bélica. Fabricantes de armas infiltram agentes em aparelhos de Estado, corporações militares, meios de comunicação, parlamentos, círculos diplomáticos, centros acadêmicos e mesmo em movimentos religiosos buscando direcioná-los para o favorecimento de seus interesses comerciais, que quase sempre colidem com os do Estado e da sociedade.

   A quem entregaremos o planejamento, controle e manuseio deste aparato industrial-militar dispendioso? Quais os generais que precisamos?

   Na Estratégia Nacional de Defesa (2008) isso não ficou claro; na elaboração do Livro Branco de Defesa, de meu conhecimento, também nada foi apresentado acerca dos comandantes que nos convém. Nenhum partido político, deputado, ministro ou presidente manifestou-se a respeito. O mundo acadêmico silenciou. É como se o assunto fosse exclusivo de generais. Um perigo, já que a guerra é, em essência, fenômeno político que envolve a todos, não um problema para profissionais especializados.

    Prestemos atenção nos homens que terão a competência técnica para comandar tropas assim como para encomendar, manter e usar as armas e equipamentos que pagamos com suor e sacrifícios.

    Repetidas vezes, oficiais brasileiros fizeram mal uso de nosso material bélico. Depois da Proclamação da República, destruíram a frota naval (então, uma das maiores do mundo!) em lutas fratricidas; empregaram todos os recursos disponíveis nos massacrando no interior da Bahia, onde nos reunimos em torno de um pregador que ensinava o valor da solidariedade comunitária e desobedecia ordens cujo sentido não lograva captar. Generais inauguraram o uso militar do avião contra nós, em 1916, na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina (ainda bem não detinham a necessária competência técnica!). Depois da Primeira Guerra Mundial, em românticas rebeliões corporativas, estraçalharam irresponsavelmente aeroplanos que havíamos comprado à França a preço de ouro. Após a Segunda Guerra, usando armas adquiridas nos Estados Unidos, perturbaram inúmeras vezes a ordem pública e agrediram instituições; acompanhando formulações ideológicas dos governantes estadunidenses e entrosados com ricos empresários brasileiros, destituíram o presidente ao qual deviam obedecer, rasgaram a Constituição, aviltaram o parlamento, censuraram, prenderam, torturaram e mataram ainda hoje não se sabe quantos.

   No meu pensar, antes de tudo, precisamos de generais não assombrados com os malfeitos de suas corporações. Rejeitemos claramente oficiais que pretendam moldar a história ao gosto corporativo. Os comandantes que precisamos devem ser corajosos o bastante para dizer, alto e bom som: nossas corporações, obedecendo ou não oligarquias dominantes, cometeram crimes vergonhosos; velaremos para que isso nunca mais se repita! Olhando de frente o passado, os generais que precisamos afastarão assombrações, caminharão serenamente em nossa defesa e ganharão aplausos.

    Está em pauta o debate sobre nossa memória. Nossas lembranças são o que somos. Não há agrupamento humano desmemoriado, nem entre povos primitivos. Perde-se a identidade quando se perde a memória. O “cultivo” da memória, ou seja, a produção de paradigmas, é indispensável à orientação dos propósitos coletivos.

    Memórias são construções sociais complexas e delicadas e nenhum ator social ou estatal pode formatá-las a seu bel-prazer. A mais intrincada e desafiadora construção é a que designamos usualmente como “memória nacional”. A nação esconde dissensos e une imaginariamente interesses antagônicos. Não por acaso, os que detêm o poder de Estado usam todos os artifícios para produzir uma memória palatável à maioria: normatizam a educação, erigem monumentos, institucionalizam símbolos, exaltam feitos, promovem gêneros musicais, enfim, não perdem chances de disseminar o sentimento comum ou a “consciência comum” sem a qual não existiriam os laços afetivos que constituem a medula da nacionalidade. Os detentores do poder atuam cientes de que, no tempo moderno, não existe poder legítimo sem amparo na nacionalidade.

   A memória nacional resulta de “esquecimentos” deliberados e opções cotidianas acerca do que deve ser lembrado e enaltecido, ensinava Ernest Renan já no século XIX, antecedendo cientistas sociais pós-Freud. Mas a memória não pode ser construída voluntariosamente, como pretendem em vão os generais brasileiros. É impossível dar-lhe forma e conteúdo convincente à revelia de espinhos encravados no fundo da percepção coletiva. O massacre de Canudos persistirá em pauta nos próximos séculos, assim como tantos outros ao longo de nossa trajetória, alimentando  conflitos entre a vanglória da caserna e a memória comunitária.

  Eu posso esquecer que fui amarrado, vendado e porreteado por bestas-feras dentro de quartéis? Não posso, não quero e não devo; trairei meu povo se o fizer. Dilma Roussef também não esquece e, no primeiro palanque do qual falou ao mundo, a Assembleia Geral da ONU, ao dizer que foi torturada, falou por todos nós. Quando verdugos fardados brutalizam pessoas, atentam contra a nacionalidade e a humanidade.

   Os generais sabem da importância da memória, que rima com glória, componente-chave do etos militar. Vivem promovendo efemérides e escolhendo vultos do passado para designar tudo: pontes, unidades militares, casernas, auditórios, bibliotecas, salas de aula… Até alamedas de jardins. O que precisamos é de generais que não tentem contraditar o bom senso mascarando malfeitos corporativos.

   Precisamos de generais corajosos, naquele sentido definido por Platão pela boca de Sócrates: homens com capacidade de sustentar opinião em condições adversas. Precisamos de comandantes que portem a grandeza da humildade e não tangenciem na abordagem dos fatos imaginando ingenuamente proteger suas corporações. Amando mais a nação que a corporação, os generais que precisamos serão candidatos à gratidão eterna; do contrário, alimentarão suspeitas e temores.

   Dá pena ouvir um jovem e tecnicamente preparado comandante militar dizendo que nem havia nascido quando suas corporações implantaram a ditadura em 1964 e o regime de terror em 1968; que apenas alguns oficiais praticaram bestialidades; que os subversivos também mataram, que na Argentina foi muito pior…

   Ora, ora, como se o militar não fosse compulsoriamente um guardião da memória corporativa! Como se todos os militares que souberam de atrocidades e calaram não se tornassem também responsáveis por crimes. Como se os que combateram a ditadura estivessem errados! Tal discurseira é vã tentativa de convalidar o terrorismo de generais que nos assaltaram com as armas que lhes entregamos para nos proteger.

   O militar brasileiro tem longa folha de serviço à sociedade que somos hoje. Antes das elites imperiais, compreendeu que negros eram humanos; antes dos literatos modernistas, reconheceu o valor do “mestiço”; antes das faculdades civis, introduziu e impulsionou variadas áreas do conhecimento científico, da engenharia à geografia, da química à medicina. Instalou meios através dos quais podemos nos comunicar. Inúmeras vezes nos atendeu em situações emergenciais. Enfim, integrou com destaque a lista dos construtores daquilo que Sérgio Buarque e outros chamaram de civilização brasileira. Mas o militar brasileiro não pode  ignorar os graves desvios cometidos e as coisas feias praticadas no exercício de seu papel construtor.

   Os generais que precisamos devem, serenos e grandiosos, pedir desculpas pelos malfeitos de suas corporações e jurar que nunca mais, a pretexto de “imperativos nacionais”concebidos intramuros, brutalizarão, degolarão e golpearão nossos direitos de pensar e falar. Nossa vocação para a esperança não pode ser tutelada pela parcela da sociedade que veste farda.

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2 Comentários

Arquivado em Manuel Domingos Neto

2 Respostas para “Os generais que precisamos (I)

  1. Arya

    Blá, blá, blá. Como sempre…

  2. Stirner

    Só os fracos necessitam de generais!

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