Mudanças de Envergadura

Por Williams Gonçalves – Professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

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 Há mudanças de grande envergadura em curso nas relações internacionais. Caminha-se mais rapidamente para a definição de nova moldura do que passará a enquadrar os movimentos de cooperação e conflito. Na perspectiva brasileira, as mudanças têm resultado tanto da dinâmica da política internacional como da evolução política, econômica e social do país. É possível observar essas mudanças no meio internacional a partir do comportamento de três atores-chave: Estados Unidos, China e o próprio Brasil.

  A perda do poder relativo dos Estados Unidos é visível a olho nu. O imenso poder acumulado ao fim da guerra fria foi dissipado. A estratégia de se manter em posição hegemônica conduzindo a globalização esvaiu-se ao fim do governo Clinton. O preço de tal estratégia revelou-se espantosamente alto. Os principais beneficiários da globalização foram os grandes países periféricos, especialmente a China. Mergulhados em profunda crise econômica, os norte-americanos assistem às grandes empresas do país investir e criar empregos no exterior, onde obtém melhor remuneração.

  A decisão de responder aos ataques de 11/9 com a “guerra ao terrorismo” se revelou desastrosa. O erro está na base conceitual: o terrorismo é indefinível, ninguém se apresenta como terrorista; todos se consideram combatentes de uma causa qualquer. O terrorista é sempre o outro, sua identificação é subjetiva. A guerra contra um inimigo desses não pode ter fim.

  Apesar disso, o governo Bush obteve apoio para invadir o Afeganistão. Porém, ao desafiar a ONU e invadir o Iraque, o apoio acabou. Os que se mantiveram ao seu lado perderam legitimidade. Bush terminou seu segundo mandato emparedado pela maioria democrata no Senado e na Câmara dos Representantes.

  A guerra contra o Iraque não criou as desejadas condições para a remodelação política do Oriente Médio. Derrotando Saddan Hussein, mas sem alcançar definitiva vitória militar e política, Bush elevou dramaticamente a despesa do Estado. Ao lado disso, a guerra promoveu elevação do sentimento antinorte-americano, gerou vasta burocracia de segurança, causou profunda mudança na cultura militar e desacreditou a política externa. A estratégia antiterror colaborou decisivamente para a eclosão da profunda crise do capitalismo sem freios engendrado pelo governo Reagan, política econômica, vale lembrar, tanto a gosto dos republicanos norte-americanos como dos liberais da América Latina.

  Barack Obama não tem conseguido dominar a crise. O índice de desemprego se mantém assustadoramente elevado. O eleitorado de Obama se sente ludibriado com a preservação dos golpes contra as liberdades desferidos por Bush e o não encaminhamento do projeto de bem estar social. Obama perdeu a maioria parlamentar nas duas Casas e se encontra inteiramente desacreditado. Na política externa é tido por republicanos e democratas como um fraco, que não consegue impor os interesses nacionais junto aos atores internacionais. Os intelectuais e formuladores de política do país assumem que não há mais como evitar a multipolarização do sistema internacional.

  Enquanto os Estados Unidos declinam, a China ascende. As decisões do governo chinês de promover abertura do mercado aos investimentos estrangeiros sob controle do Estado, em 1978, e de participar do processo de globalização, em 1994, foram responsáveis pelo crescimento médio da economia de 10% ao ano desde o início da abertura.

  Ao promover o desenvolvimento, os chineses passaram a atender à demanda dos consumidores estrangeiros de baixa renda com produtos baratos e a importar commodities em grande escala estimulando o crescimento das economias periféricas tanto na África como na América Latina. Esse movimento permitiu inusitado crescimento econômico na África e sustentou economicamente os governos latino-americanos de centro-esquerda eleitos a partir do ano 2000. O crescimento chinês tem suplantado as expectativas e as previsões que indicavam a superação da economia norte-americana pela economia chinesa vêm sendo confirmadas.

  A China se acomodará a uma ordem internacional criada segundo os interesses dos Estados Unidos ou começará a agir com vistas a criar nova ordem internacional? Como seria essa nova ordem? O que realmente significa a proposta chinesa de criação de um “mundo harmonioso”?

  O Brasil conseguiu nova inserção internacional desde meados da década passada. O crescimento econômico com inclusão social, a consolidação das instituições democráticas, a posse de 25% da biodiversidade mundial, o domínio sobre diversas fontes energéticas, a grande – e em parte ainda inexplorada – capacidade de produção de alimentos, a liderança da integração regional e uma consequente política externa orientada para o fortalecimento das relações Sul-Sul determinaram a nova maneira como o país passou a perceber a evolução do sistema internacional e como passou a ser divisado pelas grandes potências.

  A forma desinibida e equilibrada com que se move no meio internacional, sobretudo depois que compôs a aliança política com Rússia, China, Índia e África do Sul, colocou o Brasil na condição de interlocutor necessário no equacionamento das mais importantes questões internacionais; seu passado diplomático marcado pela luta em favor do desenvolvimento e a renúncia ao uso militar da energia atômica deram-lhe a condição de potência meridional pacífica e confiável.

  Contudo, a evolução do sistema internacional em direção a uma nova estrutura exige das lideranças políticas do país discernimento nas escolhas. A política externa é parte importante da luta em favor do desenvolvimento econômico-social e exige do país capacidade de defesa compatível com a cobiça internacional que suas riquezas despertam. Em grande medida, a autonomia nas decisões depende disso.

  Para assegurar sua condição de ator no rol das grandes potências, é imprescindível continuar investindo na integração continental, o que exige compreensão das particularidades de cada vizinho. Há que se proceder como a China, que, para granjear credibilidade e apoiar Estados vizinhos, mantém com eles relações comerciais deficitárias.

  A multipolarização do poder mundial abre um leque de possibilidades no jogo político. Na América do Sul, os grandes interessados são Estados Unidos e a China. O primeiro não quer perder influência, enquanto o segundo quer ampliar sua presença sem gerar conflito. As lideranças brasileiras precisam usar da arte para se beneficiar desse jogo, associando-se a cada um dos dois, tanto dentro como fora do continente. O êxito depende, evidentemente, de forte consenso entre as elites do país, para que não se perca a oportunidade de promover a grande arrancada do desenvolvimento.

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