Depois de Fukushima

Odilon Marcuzzo do Canto –  Secretário da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade de Materiais Nucleares -ABACC

 .

 José não entendeu nada. Ao tempo em que o médico lhe informava que tinha um câncer de pâncreas, parabenizava-o por ter tirado a sorte grande! Depois o médico lhe explicaria que esses casos, em estágio inicial, são facilmente tratáveis. O que lhe salvaria era a Tomografia por Emissão de Pósitrons combinada com a Tomografia Computadorizada. A primeira gera imagens sobre o metabolismo celular, a segunda mapeia estruturas anatômicas; combinadas, permitem o diagnóstico salvador.

  Mas o paciente ficou embaralhado ao saber que as técnicas dependiam de radioisótopos fabricados nos famigerados reatores nucleares, os mesmos que ele aprendera a odiar. Ainda adolescente, José vibrara com a luta de Jack Godell (Jack Lemon, Síndrome da China), contra os corruptos caciques dessa sinistra indústria.   Anos depois, novamente o cinema lhe mostraria o lado negro da indústria nuclear. José ficou sensibilizado com Merryl Streep contaminada por radiação na indústria onde era operária (Silkwood). Radiação nuclear: algo que produz consequências físicas, mas não se consegue ver, ouvir, cheirar, sentir?! José não acredita em demônios, mas…

  Parecia-lhe que os fatos confirmavam as teses da sétima arte: acidentes ocorridos em centrais nucleares foram tratados como catástrofes ao estilo “juízo final”.  José é da geração formada com noções incorretas, ou distorcidas, sobre a energia nuclear e suas aplicações.

Os eventos em Fukushima Daiichi permitem análises e conclusões sobre o futuro da indústria nuclear. Uma sequência de acidentes – Three Mile Island (1979), Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) – sugerem que se trata de uma tecnologia que frequentemente escapa ao controle, com consequências catastróficas para seres humanos e meio ambiente. A conclusão seria o imediato abandono da geração nucleoelétrica. Esta linha de raciocínio parte de premissas erradas e enseja equívocos. Os três eventos não são comparáveis: têm gêneses diversas e produziram consequências diferentes.

  Three Mile Island decorreu de uma falha no fechamento de uma válvula e de uma sequência de interpretações erradas por parte dos operadores dos indicadores e sensores do painel de controle.  Tais erros induziram, ou a falta de ação ou a tomada de medidas erradas. Houve fusão parcial do núcleo do reator; não houve contaminação de seres humanos nem maiores consequências para o ambiente.  Este acidente evidenciou o despreparo dos operadores e a necessidade de aprimoramento dos sistemas de monitoramento. Provocou melhorias no treinamento de operadores e grandes investimentos em inovações para melhorar a segurança.

  Chernobyl aconteceu num reator com tecnologia ultrapassada: uma pilha de grafite de tecnologia primária, sem condições mínimas de segurança. Teve como causas principais o despreparo dos operadores e a obsolescência da tecnologia. O fato de a União Soviética estar num processo de desmantelamento político na época é a única explicação plausível para uma central nucleoelétrica funcionar naquelas condições.  O acidente acarretou a perda de dezenas de vidas humanas, principalmente de trabalhadores diretamente envolvidos; contaminou vastas áreas do hemisfério norte e acarretou perdas consideráveis para a agricultura.

 Como tem sido usual no trato de acidentes com radiação nuclear, a cobertura do evento foi mais na direção do sensacionalismo do que no repasse de informações fidedignas. Sem minimizar os efeitos de Chernobyl, é interessante consultar o relatório de 2011 do Comitê das Nações Unidas sobre Efeitos das Radiações Atômicas – UNSCEAR .

 Muito se aprendeu com Three Mile Island e Chernobyl. Os reatores incorporaram um grande número de inovações tecnológicas. Os sistemas de regulamentação e controle criaram novas exigências e procedimentos, todos garantindo maior segurança para os trabalhadores e a população.

  O acidente de Fukushima foi desencadeado por eventos naturais de intensidade fora de escala dos esperados pelos modelos científicos até então considerados, não foi nem causado por ações equivocadas ou falta de ação dos operadores nem por falha dos dispositivos associados. O terremoto que atingiu o Japão em 11 de março ficou conhecido como “The Great East Japan Earthquake”: liberou energia suficiente para mover o Japão alguns metros na direção leste e fazer a linha da costa submergir meio metro.  Com o epicentro a 130 quilômetrosa leste da costa da ilha de Honshu (a parte principal do Japão esta nesta ilha), teve classificação 9.0 na escala Richter. Foi um evento sísmico raro e complexo, envolvendo três placas tectônicas e provocando um tsunami capaz de inundar cerca de560 quilômetrosquadrados e matar mais de 25.000 seres humanos. Os danos materiais atingirão a casa dos trilhões de dólares.

  Quando ocorreu o terremoto, 11 reatores nucleares estavam em plena operação e três em manutenção. Todos foram paralisados pelos sistemas de segurança. O calor residual que acompanha tipicamente a parada de um reator nuclear é da ordem de 5% de sua potência ao ser desligado. Em situação normal de desligamento, após a primeira hora este valor cai para aproximadamente 1,5%. Os sistemas de arrefecimento são projetados para retirar esse calor residual de forma controlada e segura. Para tal, cada reator conta com conjuntos recorrentes de resfriamento. Caso ocorra pane em um deles, outro entra imediatamenteem cena. Nocaso de Fukushima havia, para cada reator, um conjunto de bombas elétricas ligadas à rede externa de fornecimento tocado por geradores diesel e um terceiro conjunto dentro do prédio, ligado às baterias elétricas.

  O terremoto destruiu a rede elétrica externa. Conforme o esperado, os geradores a diesel entraram imediatamente em ação garantindo a retirada do calor residual. Infelizmente, 45 minutos após, a tsunami com 15 metros de altura atingiu as instalações, colocando fora de ação os geradores a diesel e danificando tubulações, baterias e outros componentes fundamentais para a retirada do calor residual.

  Pelos relatórios das autoridades, somente um gerador a diesel não foi danificado. Construído em local mais elevado, era ligado aos reatores 5 e 6. Mesmo na situação caótica que estabelecida, os técnicos colocaram em funcionamento sistemas de arrefecimento suficientes para levar oito dos onze reatores afetados em situação “cold shut-down”, isto é, ao completo e seguro desligamento dos oito reatores.

  Para tentar refazer o ambiente: a maioria dos funcionários vivia nas proximidades e percebia o quanto as suas famílias poderiam ter sido afetadas pelos eventos. Além disso, não restavam estradas, prédios ou equipamentos intatos num raio de quilômetros.

  O resultado foi a fusão dos núcleos dos reatores 1 a 3 que provavelmente atingiram temperaturas ao redor de 2.800 graus centigrados. O reator 4 estava sem carga, mas o problema foi repassado para a piscina de armazenamento de elementos combustíveis irradiados que também sofreu perda de água, produzindo a fusão do combustível armazenado. A falta de alimentação elétrica externa e interna provocou ainda a perda de todos os sistemas de instrumentação e controle dos reatores 1 a 4.

  A situação se agravou bastante quando explodiu a parte superior do edifício do reator pelo acúmulo de hidrogênio. Este gás, altamente explosivo, foi formado pela reação do vapor de água com o zircônio dos elementos combustíveis a altas temperaturas. Dia 12 de março ocorreu a explosão no prédio do reator 1. Tais eventos se repetiram dias 14 e 15 nos prédios dos reatores 3 e 4.

  Provavelmente, estas explosões foram as maiores responsáveis pela contaminação ambiental. Juntamente com o hidrogênio, foram liberados produtores de fissão como iodo e césio. Felizmente a população havia sido evacuada da área, minimizando a exposição à radiação.

  Ações subsequentes efetuadas pelas autoridades têm sido efetivas para colocar os reatores acidentados em controle e para remediar a contaminação ambiental.  Até princípios de setembro, dados da Agência Internacional de Energia Atômica demonstravam que apesar da extensão do acidente, ninguém recebeu doses letais de radiação ou doses que predisponham a qualquer tipo de câncer.

  As reações dos países aos eventos em Fukushima têm sido variadas. A Alemanha, num movimento de certa forma surpreendente, e atendendo segundo muitos analistas, mais às particularidades circunstanciais de política interna do que a razões técnicas, impôs imediata moratória na expansão de seu parque de centrais nucleoelétricas. Suspendeu inclusive a planejada extensão da vida útil de reatoresem funcionamento. Restaver como, num futuro próximo, serão atendidas suas demandas por energia. China e Índia, os dois principais destinos da frota de reatores em construção e a serem construídos nos próximos vinte anos, não modificaram suas expectativas. De acordo com o Diretor Geral da AIEA, a frota mundial de reatores nucleares deve receber um acréscimo mínimo de 90 reatores até 2030.

  O programa nuclear brasileiro não deverá ser afetado pelo evento de Fukushima. Está previsto o término da construção do reator 3 da Central Nuclear de Angra dos Reis e quatro reatores com sítio a ser definido, provavelmente no nordeste. Prevê ainda a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RBM), que preencherá importante lacuna, pois permitirá ao Brasil autonomia na produção do importante radionuclídeo Tecnécio-99. No mundo são realizados por ano cerca de 25 milhões de procedimentos de radiodiagnóstico com o radionuclídeo Tecnécio-99; no Brasil, são realizados cerca de três milhões de procedimentos. Esta instalação terá importante papel: o RMB será um laboratório fundamental para testes de novos materiais e ainda será relevante na formação de recursos humanos para o setor nuclear.

  Evidentemente, as autoridades nucleares brasileiras, como acontece em toda o mundo, devem utilizar os ensinamentos de Fukushima para o aprimoramento de regras e procedimentos de segurança. Mas o evento não deve desestimular nem apequenar os esforços nacionais em busca do pleno desenvolvimento neste setor tecnológico. Mesmo porque o Brasil é um dos únicos países que, ao lado de dominar a tecnológica do ciclo completo do combustível nuclear, detém uma das maiores reservas de urânio do mundo. E este é um mercado em expansão.

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1 comentário

Arquivado em Odilon Marcuzzo do Canto

Uma resposta para “Depois de Fukushima

  1. Elisabeth Silvestre

    José é digno de dó. Ignorante, e por isso preconceituoso, confunde realidade e ficção. É preciso ter paciencia com José. Afinal, ele pertence a uma “geração formada com noções incorretas, ou distorcidas, sobre a energia nuclear e suas aplicações”. É preciso mostrar-lhe os benefícios das pesquisas nucleares para a vida. Aliás, acho até que salvar vidas e ajudar a construir um mundo harmonioso, de pessoas mais saudáveis e felizes é o objetivo maior destas pesquisas.

    Falhas acontecem, claro, e são lamentáveis. Mas os cientistas estão atentos, prontos para corrigir seus erros. As vezes a natureza atrapalha, como em Fukushima. O problema é que ela, a natureza, produz “eventos […] de intensidade fora de escala dos esperados pelos modelos científicos até então considerados”. Ali houve uma conjunção de coincidências macabras. Puro azar! Um raro fenômeno da natureza não pode afetar o bem sucedido programa nuclear brasileiro, não pode impedir o desenvolvimento.

    José deve se alegrar. Os reatores nucleares tendem a se multiplicar pelo mundo e o Brasil, além de tecnologia e matéria prima para suas usinas, pode exportar urânio. Viva a ciência e o mercado mundial de urânio! Com paciência o José, ou melhor, os josés e as marias sairão da ignorância e acabarão entendendo que essa é mais uma grande oportunidade para o Brasil. Vamos obter divisas, aumentar o PIB, gerar empregos etc etc…e viver num mundo mais seguro. Tudo vai melhorar, com certeza!

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