A Bela Morte em Sirte

Manuel Domingos Neto – Professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense

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   A vistosa cidade de Sirte vai se tornando um pavoroso amontoado de escombros. Cadáveres insepultos jazem pelas ruas. Escolas, hospitais, estradas, serviços básicos, prédios públicos são destruídos pelas bombas lançadas em nome da democracia. Com toques piegas e cinismo sem par, a imprensa internacional chama a atenção para a “crise humanitária” instaurada pela intervenção neocolonial.

  Enquanto isso, a indústria de armas soma seus lucros e grandes empresas assinam alegremente bons contratos em Trípoli com governantes fantoches lastimavelmente reconhecidos pela ONU. Além da exploração do petróleo, a reconstrução da Líbia faz o bom humor de empresas europeias e estadunidenses desesperadas por encomendas. O povo líbio arcará com os custos da munição e dos combustíveis empregados pela OTAN.

   Alguns mencionam dezenas de milhares de mortos desde que a sinistra aliança militar passou a bombardear o país. Uma pilha extraordinária de cadáveres, caso se tenha em conta que a população da Líbia é de apenas seis milhões de habitantes.

Cenas da destruição em Sirte. Fonte: Daily Telegraph.  

   Como se explica a resistência daqueles que nos são apresentados como “leais ao ditador Kadafi”? A iminente queda de Sirte foi muitas vezes anunciada, mas não há elementos que permitam supor que Kadafi e seus combatentes transformem a Líbia num novo atoleiro para a OTAN ou sejam mortos a curto prazo.

  De toda forma, fica revelada a predisposição ao martírio dos combatentes líbios, fenômeno que pode ser compreendido sem exegese do Alcorão. Durkheim, que baseou sua classificação dos suicídios em fichários de polícia, também não ajudaria, assim como a psicanálise. Não se trata de morbidez, mas de decisão política e estratégica no pleno sentido dos termos.

   Em qualquer tempo e lugar, guerreiros cultivam a bela morte cantada pelos aedos gregos porque sentem o seu formidável alcance político. Homero contou que Agamenon ofereceu presentes pelo apoio de Aquiles na Guerra de Tróia: Briséis, a mulher que lhe havia sido tomada, jazidas, cavalos, sete mulheres de Lesbos, sete cidades que lhe dariam oferendas como a um Deus. Aquiles recusou dizendo preferir “uma longa vida”, na qual a morte, que tudo destrói, não saberia lhe alcançar. Morrer para sobreviver politicamente é atitude recorrente desde tempos imemoriais.

  Leônidas e os trezentos espartanos, aguardando a morte nas Termóphilas, tornaram-se símbolos da civilidade grega, origem do Ocidente moderno. Nos combates codificados do medievo, os que não tremiam frente à morte certa asseguravam a própria honra e prolongavam a sobrevivência de suas comunidades. Santo Agostinho, usando o caso de Sansão, indicou a seus contemporâneos e pósteros que o homem tem direito de dar-se à morte quando ouve o sopro da divindade, essa prima-irmã do poder político. Homens que morrem lutando tornam-se paradigmas, galvanizam multidões e animam processos sociais. A forma como El Cid morreu ensejou a simbologia para a emergência da nacionalidade espanhola; os franceses, gritando endiabrados “mourir pour la patrie”, espalharam ideias sobre liberdade e igualdade de direitos que ajudaram a compor a modernidade política.

   Os construtores dos Estados ditos nacionais induziram cidadãos a oferecer generosamente seu sangue pela honra de comunidades imaginadas. Aos brasileiros foi ensinado que a adoração à pátria exige não temer a morte. “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”, escreveu o príncipe português que proclamou a Independência. No século XX, em Verdun, em Stalingrado, centenas de milhares de homens ofereceram a vida em manobras sem retorno e definiram o curso das duas guerras mundiais. Seus sacrifícios contribuíram para alicerçar a ordem política mundial.

    O que ensombrece a percepção da bela morte dos 19 guerreiros que atacaram o Império em 11 de setembro de 2001 é o fato de não distinguirem o Estado agressor da sociedade: morreram matando aos montes, indiscriminadamente. A chacina inibiu manifestações de solidariedade a sua causa. Quem pensaria que se apossaram de aviões civis porque não dispunham de meios convencionais? Quem concluiria que deram suas vidas porque, em sua forma de pensar, não lhes restava outra forma de combate a um inimigo infinitamente mais poderoso? Insanos e covardes para uns; gloriosos eternamente para outros. Mas, indiscutivelmente, viverão como parteiros de uma nova era.

   A rigor, sacrificando civis, os 19 guerreiros não inovaram: reproduziram práticas de potências ocidentais durante a construção da civilização que se reclama superior. Gore Vidal, em “The end of liberty – towards a new totalitarianism”, listou cerca de 400 ataques mortíferos que os governantes estadunidenses praticaram contra outros povos,  deixando claro que preferem ser mais temidos que amados. Para o colonialismo europeu, ao longo dos últimos séculos, a repugnante contabilidade seria bem mais complexa.

    Hoje, protegidos pelas alturas, soldados da OTAN despejam bombas sobre a Líbia sem mirar rostos humanos, desdenhando o ensinamento de que a dimensão da vitória é dada pelo grau de subordinação imposto ao adversário, não pelo número de mortos: “o melhor é tomar o país inimigo totalmente e intacto”, dizia Sun Tzu. A OTAN tem destruído sem lograr deter a palavra final. Mostra superioridade militar e incapacidade de impor seus desígnios a tribos esfarrapadas. Faz como César na Gália, que exibia ferocidade para desestimular resistências e ditar a “pax” em domínios sem fronteiras. O que sobrou de seu poderio ímpar foram fragmentações ainda hoje não resolvidas. Como os grandes dirigentes ocidentais demoram a cair na real!

   A guerra, horror e maravilha que tudo exacerba, paixões e ódios, baixarias e grandezas, aguça intuições. Se os resistentes mulçumanos acatam o sacrifício da própria vida intuindo que o inimigo termina enfraquecido, estão acertando. O mal-estar causado pelo esmagamento de tribos afegãs converte-se agora em protesto mundial. Nas ruas de Nova Iorque há cartazes: “larguem os afegãos!”. Vingança pode até gerar aplausos doentios e efêmeros, como ocorreu com o assassinato de Bin Laden. Já os massacres por conta do domínio de posições estratégicas e de riquezas naturais, seguramente, não. Cedo ou tarde serão cobrados a preço de sangue.

   Atacando terras alheias os governantes ocidentais, além de agravar seus problemas domésticos, despertam ódios e ampliam a lista de candidatos à bela morte.  Em Sirte, a OTAN contribui para transformar o soberbo mundo islâmico numa apavorante mistura de Palestina, Afeganistão e Somália.

    Perdendo a vida, Kadafi, que financiou a construção de incontáveis mesquitas pela África e açulou o pan-arabismo, terá a “longa vida” que Aquiles tanto prezava. Candidata-se a legenda poderosa nas guerras sem fim programadas para este continente.

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2 Comentários

Arquivado em Manuel Domingos Neto

2 Respostas para “A Bela Morte em Sirte

  1. Lincoln Moraes de Souza

    No geral achei o texto muito bom. Acrescentaria apenas algumas pequenas observações: no ataque de 11 de setembro precisa ser lembrado também a ação contra o Pentágono e não somente às torres; os povos árabes têm o direto de se defender; a ONU é uma das coisas mais vergonhosas; a universidade precisa pronunciar-se mais sobre o assunto, mesmo que não aumente seus pontos com a
    CAPES …

  2. Elisabeth Silvestre

    Gostei. Reli o artigo e revi o vídeo agora, com Kadafi morto. Vou indicar o site.

    Após dez anos do 11 de setembro (lembrado recentemente com muitas homenagens às vítimas) quantos terão morrido pelas mãos daqueles que se reclamam defensores da democracia?
    Uma observação: Atacando terras alheias os governantes ocidentais agravam alguns de seus problemas, mas, temporariamente “resolvem” outros. Além dos alvissareiros negócios futuros, não deverão os líbios (tal como os iraquianos) pagar pela destruição que sofreram?

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